12/04/2019

Em março, a dinâmica de formação de preços de mercado, no âmbito doméstico e externo, continuou sujeita à volatilidade, corroborando as projeções que vêm sendo feitas em Cartas Mensais anteriores. Deste modo, as dicotomias que têm determinando essa escalada de volatilidade se intensificaram: (i) no cenário externo o risco de desaquecimento vs. ajustes monetários destinados ao provimento de liquidez e; (ii) no cenário doméstico o otimismo relativo ao conteúdo das Reformas e sua possibilidade de aprovação vs. a débil recuperação econômica ora em curso desde o fim da maior recessão já registrada no Brasil.

Começando pelo entorno global, o início de março ainda refletia a percepção de desaquecimento global e, consequentemente, impactou negativamente o preço dos ativos de risco. À medida que novos indicadores econômicos vinham sendo divulgados, ficava claro que a perda de dinâmica era pontual e os dados mais recentes já circunscreviam o processo. Os dados mensais relativos ao mercado de trabalho norte-americano ilustram de forma clara esse processo. A média dos últimos 12 meses vinha oscilando acima de 200 mil novos postos de trabalho mensais e, em fevereiro, registrou-se apenas 20 mil (revisados para 33 mil na última divulgação). Em março, foram criadas 196 mil novas vagas, portanto acima das expectativas de 177 mil e se aproximando da média móvel. Ou seja, afastou-se o risco de uma recessão iminente.

Ademais, a postura dos Bancos Centrais foi prontamente ajustada desde o início do ano. O Federal Reserve, por exemplo, indicava até o fim de 2018 que o cenário mais provável contemplaria duas novas elevações de juros em 2019. Na reunião do Comitê de Política Monetária (FOMC) de março, houve revisões que apontam para um cenário de manutenção dos juros ao longo do ano. Além disso, deu-se atenção ao processo de normalização do balanço do FED, cuja interrupção afeta o ritmo de contração da liquidez disponível.

Na mesma linha, mas em gradações distintas, tanto na Europa quanto na China o enredo econômico é similar. Na Europa o desaquecimento econômico é mais acentuado, com dados fracos em especial da Alemanha e, na China a possibilidade de um ritmo de desaquecimento mais acentuado que o previsto anteriormente. Em relação à China, ainda é prematura a análise dos impactos das medidas anticíclicas adotadas no início do ano e, na Europa, cabe lembrar dos efeitos do chamado Brexit. Por fim, as tensões comerciais trazem risco ao crescimento global.

No cenário nacional, os dados econômicos seguem abaixo das expectativas. A expectativa de crescimento que estava em torno de 2,5% no início do ano foi minorada para 2% e, de acordo com nosso cenário deve continuar piorando para 2019, a despeito da aprovação da Reforma.

Com relação ao cenário político, falhas de comunicação do Executivo criaram bastante ruído chegando a deflagrar uma crise entre Executivo e Legislativo. A crise parece contornada, mas teve impacto sobre as expectativas do mercado em relação à capacidade do governo implementar sua Agenda. Além disso, novas ações da Lava-Jato levaram à prisão do ex-presidente Michel Temer entre outros. Apesar de sua soltura em poucos dias, a ação conturbou ainda mais a articulação política. Por fim, no fim de março o ministro Paulo Guedes cancelou sua presença na Comissão de Constituição e Justiça, causando forte movimento de aversão a risco.

Corroborando o descrito, a bolsa americana registrou a maior queda diária desde janeiro e, também, a máxima do ano. Já o índice Ibovespa chegou a superar a marca de 100 mil pontos intraday (nenhum fechamento acima), antes de cair aos 92 mil pontos. Por fim, o Real ultrapassou os R$4 por dólar, mas se estabilizou próximo a R$ 3,85.

Em termos absolutos, os planos apresentaram rentabilidade satisfatória novamente, apesar da volatilidade. A comparação com a meta atuarial, por sua vez, provavelmente será um pouco desfavorável na medida em que as chuvas de março impactaram negativamente a safra agrícola e, por conseguinte, provocaram uma elevação temporária da inflação. Cabe lembrar que como a divulgação da inflação de março ocorre em abril, o repique inflacionário, que agora atrapalha, terá efeito positivo na parcela de títulos indexados e marcados na curva devido à atualização do principal conforme a inflação divulgada.

Finalmente, a estratégia de investimento que vem sendo implementada tem-se mostrado acertada e, por isso, após um breve período de observação novas alocação estão sob escrutínio de modo a utilizar um pouco mais dos limites disponibilizados pelas Políticas de Investimento vigentes.

Marcelo Castello Branco – Gerente de Investimento

Carta do Gestor de Investimento – abril